Pantanal em Risco: Entendendo os Impactos da Hidrovia Paraguai – Paraná

A proposta de concessão da Hidrovia Paraguai – Paraná tem gerado preocupação entre pesquisadores, comunidades tradicionais e organizações ambientais que atuam no Pantanal. O projeto prevê a ampliação da navegação em cerca de 590 km do Rio Paraguai, no trecho entre Corumbá e Porto Murtinho, com foco no aumento do transporte de cargas, especialmente de minério de ferro.

Embora apresentada como uma alternativa logística, a iniciativa levanta alertas importantes sobre possíveis intervenções no leito do rio, como dragagem e derrocamento de rochas, que podem alterar profundamente a dinâmica natural do sistema hídrico pantaneiro.

O Rio Paraguai e o pulso de inundação do Pantanal

O Rio Paraguai desempenha um papel central no funcionamento ecológico do Pantanal, sendo responsável por reter e distribuir as águas que alimentam a planície durante o período de cheias. Qualquer alteração em seu curso pode impactar diretamente o chamado “pulso de inundação”, processo natural que regula a vida no bioma.

Esse ciclo de cheias e secas é importante para a manutenção da biodiversidade, influenciando desde a disponibilidade de nutrientes até a reprodução de diversas espécies. Alterações nesse regime podem comprometer o equilíbrio ecológico de todo o Pantanal.

Impactos para a fauna: o caso das ariranhas

As ariranhas são altamente dependentes de rios saudáveis e bem estruturados. Esses ambientes fornecem alimento, abrigo e locais adequados para reprodução e organização social da espécie.

Mudanças no regime hidrológico, na disponibilidade de peixes ou na estrutura das margens podem afetar diretamente a sobrevivência das ariranhas. Como predadoras de topo na cadeia alimentar aquática, elas também funcionam como importantes indicadoras da saúde dos ecossistemas aquáticos do Pantanal.

Impactos nas comunidades pantaneiras

Os possíveis efeitos da hidrovia não se restringem à biodiversidade. As comunidades pantaneiras também podem ser diretamente afetadas, uma vez que dependem dos recursos naturais para atividades como pesca, turismo de observação da vida selvagem e modos tradicionais de subsistência.

A redução de áreas alagadas e a possível diminuição dos estoques pesqueiros podem comprometer a segurança alimentar, a economia local e o modo de vida dessas populações.

Debate público e participação do Projeto Ariranhas

Em março, uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, intitulada “Rios que Conectam, Obras que Fragmentam: os impactos da Hidrovia Paraguai-Paraná no Pantanal, seus povos e espécies”, reuniu pesquisadores, autoridades e representantes da sociedade civil para discutir os possíveis impactos do projeto.

O Projeto Ariranhas esteve presente no encontro, discutindo a importância de considerar os efeitos da hidrovia sobre as populações de ariranhas e seus habitats, além de chamar atenção para as comunidades locais que dependem diretamente da integridade do Pantanal.

Seguimos acompanhando e contribuindo com esse debate, alertando a necessidade de decisões baseadas em evidências científicas e comprometidas com a proteção do Pantanal, de sua biodiversidade e de seus povos.

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João Guerreiro – Graduando em Ciências Biológicas, integrante do Projeto Ariranhas, atuando na pesquisa e conservação da espécie no Pantanal. É membro do Grupo de Especialistas de Lontras (OSG) da IUCN. Possui experiência em conservação e educação ambiental, com atuação no litoral sul do Brasil (tartarugas marinhas) e na região Noroeste do RS (microalgas e abelhas sem ferrão). Sua trajetória acadêmica envolve interações ecológicas, ecologia de ambientes aquáticos, conservação da fauna nativa, engenharia ambiental e divulgação científica.

Mariana Malzoni Furtado – Veterinária, formada em 2002 pela Universidade de São Paulo, com doutorado em Ciências em 2010 pelo Programa de Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses do VPS/USP e pós-doutorado em Epidemiologia Animal em 2014. Atua há mais de 18 anos na Conservação de Animais Silvestres em diferentes biomas brasileiros como Pantanal, Amazônia, Cerrado e Caatinga, com ênfase em Medicina da Conservação, Epidemiologia Animal, Doenças Infecciosas e Interação entre animais domésticos e silvestres. Pesquisadora do Instituto Onça Pintada de 2003 a 2014, contribuiu em projetos de pesquisa em conservação de animais silvestres atuando como médica veterinária e gerente de Medicina da Conservação. Possui experiência com diferentes métodos de captura de animais silvestres de vida livre, tendo anestesiado e manejado mais de 200 animais de diferentes espécies, incluindo onça-pintada, lobo-guará, ariranha, jaguatirica, gato-palheiro, cachorro-do-mato, queixada, tatu-canastra, entre outros. Colabora desde 2007 com projetos de pesquisa com ariranhas, realizando capturas e cirurgias para implante de radio transmissor e avaliação sanitária da espécie. Sempre estudando, publicando e contribuindo para a disseminação da Medicina da Conservação e importância de estudos epidemiológicos em animais silvestres.

Abigail Martin – Zoóloga Americana. Em 2015 Abbie criou o Projeto “Jaguar Identification Project”, na inspiração de adicionar valor à maior planície de inundação do mundo, o Pantanal. O “Jaguar ID Project” usa ciência cidadã e armadilhas fotográficas para monitorar a ecologia e o comportamento da população de onças da região do Parque Estadual Encontro das Águas e Porto Jofre no Pantanal Norte. Durante os anos que vem observando onças ao longo dos rios da região, Abbie também segue os grupos de ariranhas, contribuindo com informações sobre a espécie e monitorando os grupos focais do nosso Projeto. Aliado a isso, sua experiência com a comunidade local e com a identificação de onças vem contribuindo para as ações do Projeto Ariranhas.

Grazielle Soresini – Veterinária, especialista em Clínica Médica e Cirúrgica de Animais Selvagens e mestre em Ciência Animal. Em 2019 Grazi finalizou seu doutorado em Ecologia e Conservação pela UFMS, realizando sua tese sobre genética e saúde de ariranhas. Atuou profissionalmente realizando atendimento veterinário clínico e cirúrgico em aves, répteis e mamíferos silvestres em diversas instituições. Sócia da Clínica Vida Livre – Medicina de Animais Selvagens (Curitiba/PR), primeira clínica veterinária do Brasil especializada em animais selvagens. Desde 2015 vem atuando em atividades de campo e monitoramento de grupos de ariranhas no Pantanal. É membro voluntário do Grupo de Especialistas em Lontras da IUCN (Otter Specialist Group) desde 2016.

Nathalie Foerster – Bióloga e atualmente aluna de doutorado do Programa de Pós Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Nathalie vem desenvolvendo sua tese de doutorado sobre ecologia comportamental e bioacústica de ariranhas na região do Miranda no Pantanal do Mato Grosso do Sul.

Samara Almeida – bióloga e mestre em Ciências Biológicas, trabalha há 6 anos com ariranhas no estado do Tocantins, atuando na área de Conservação, Monitoramento, Educação ambiental, Comunicação e Comportamento animal. Atualmente Samara coordena uma pesquisa sobre comunicação acústica de ariranhas no Parque Estadual do Cantão, Tocantins, que faz parte da sua tese de doutorado.

Lívia de Almeida Rodrigues – Bióloga e Analista Ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do ICMBio (ICMBio/CENAP). Começou a trabalhar com ecologia de lontras no estado do Rio de Janeiro em 2002. Desde 2011 Lívia atua na elaboração de estratégias de conservação da fauna brasileira ameaçada de extinção, entre elas os Planos de Ação Nacional e a avaliação do risco de extinção dos carnívoros brasileiros. É membro do Grupo de Especialista de lontras da IUCN

Karen Arine Souza – Ecóloga, Guia de Turismo naturalista há 10 anos, começou a guiar no Pantanal de MS e depois se mudou para o Mato Grosso do Sul. Em 2020 trabalhou no “Jaguar ID Project”, coletando dados para a conservação da Onça-pintada e avaliando a população no período pós-incêndio. Atualmente Karen participa do Projeto Ariranha, atuando em ações direcionadas às comunidades tradicionais no Pantanal. Karen é membra fundadora da Associação de Turismo do Pantanal Norte (Aecopan), tendo atuado como diretora administrativa de 2015 a 2017 e atualmente é membra do conselho. A associação tem como objetivo conservar o Pantanal Norte, utilizando o ecoturismo como ferramenta de desenvolvimento socioambiental, visando as boas práticas e a sustentabilidade de todas as suas atividades.

Nicole Duplaix – doutora em Ecologia pela Universidade de Paris, França. Nicole estudou lontras por 45 anos e agora está focada em pesquisa e conservação de lontras na Asia e América do Sul. Ela é fundadora e co-presidente do grupo de especialistas em lontra da IUCN-SSC – a autoridade global em conservação de lontras. Ela leciona cursos de Biologia da Conservação e Planejamento de Recuperação de Espécies na Oregon State University.

Jessika Albuquerque – graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB, Campina Grande) e em formação como Designer Gráfico pelo Centro de Capacitação Profissional InforQuality. Possui experiência em estágios e voluntariados nas áreas de comunicação, com ênfase em produção de conteúdo e gestão de redes sociais, divulgação científica, percepção e educação ambiental, ensino experimental de ciências e conservação de mamíferos. No Projeto Ariranhas, atua principalmente na comunicação, gerenciando e produzindo conteúdo para redes sociais (Instagram, Threads, Facebook, LinkedIn, YouTube e website), além de colaborar no monitoramento de ariranhas no Pantanal e em ações de sensibilização e educação ambiental.

Fernando Rodrigo Tortato – Doutor em Ecologia e Conservação da Biodiversidade pela Universidade Federal de Mato Grosso. Fernando é pesquisador associado da ONG Panthera e atua há mais de 10 anos em projetos voltados à conservação da onça-pintada. Em seu doutorado avaliou como a atividade de turismo pode representar uma ferramenta para conservação da onça-pintada no Pantanal. Em suas atividades de campo no Pantanal, é muito frequente a observação de ariranhas. Fernando tem interesse em entender como a atividade de turismo pode afetar o comportamento e sobrevivência destes incríveis mustelídeos. Fernando desempenha o papel de colaborador do Projeto Ariranhas, auxiliando no contato com lideranças locais, apoio logístico e na divulgação das ações desenvolvidas.

Letícia Graciano – ilustradora e arte educadora, graduada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas. Pesquisadora da cultura da infância, trabalhou em algumas ongs no estado de São Paulo proporcionando vivências artísticas para crianças e adolescentes. Convive com populações rurais, além de acompanhar e participar de projetos de conservação no Brasil há alguns anos.

George Leandro – Biólogo, Sanitarista, viveu e atuou profissionalmente em alguns estados do Brasil, possui experiência com gestão de UC e conservação de espécies ameaçadas. Morou e trabalhou com populações tradicionais em áreas isoladas, além de ter participado de projetos e ações sociais em áreas urbanas e rurais.

Gabriela Duarte – Mestra em Biologia pela Universidade de São Paulo (USP), atua em diferentes áreas do Projeto, como na coleta e análise de dados sobre ariranhas no Pantanal Sul; realização de atividades educativas/treinamento que buscam aumentar a informação sobre as ariranhas e estreitar a ligação do público com esse grupo de animais; e auxílio da equipe nas atividades administrativas.

Gabriel Brutti – fundador do Projeto Dispersar, é biólogo, professor e fotógrafo profissional. Formado em Técnico em Meio Ambiente e Licenciatura em Ciências Biológicas pelo Instituto Federal Farroupilha (IFFar) campus Santa Rosa-RS, atuou como bolsista e voluntário em projetos de pesquisa com aves em conjunto de projetos extensionistas voltados para a educação ambiental. Atualmente é aluno de pós graduação em Biodiversidade e Conservação no IFFar campus Panambi – RS e integrante do Projeto Ariranhas.

Greice Gonchoroski – Mestranda (bolsista CNPq) no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal (PPGBAN) – UFRGS. Médica Veterinária pelo Centro Universitário Ritter dos Reis – UniRitter (bolsista PROUNI-MEC) com atuação nas áreas de Medicina e Conservação de Animais Silvestres, e Parasitologia Animal. Colaboradora em Projetos de pesquisa na área de monitoria de mamíferos silvestres e sanidade animal junto ao Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor- IPVDF.

Caroline Leuchtenberger – Bióloga. Coordenadora e fundadora do Projeto Ariranhas e professora no Instituto Federal Farroupilha. Desde 2006 vem conduzindo atividades de pesquisa com a espécie, que foi seu objeto de estudo durante o mestrado e o doutorado. A partir de 2013 passou a ser coordenadora da espécie no grupo de especialistas em Lontras da IUCN. Carol também assessorou o desenvolvimento do Plano de Ação Nacional para Conservação de Ariranhas junto ao ICMBio e o Plano Estratégico Global de Conservação de Lontras realizado pela IUCN. Além disso, Carol participa do projeto de reintrodução de ariranhas coordenado pelo grupo CLT (Conservation Land Trust) e realizado em Iberá, na Argentina.